segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Quando iniciamos qualquer pensamento sobre urbanismo e todas as suas questões, as referências sempre partem com base na tecni-cidade, no espaço urbano puramente técnico e embebido, essencialmente, de uma estética demagoga.  Lembramos, logo de início, do urbanismo parisiense de Hausmann, Ebenezer Howard com a cidade-jardim, do urbanismo de Chicago, de Daniel Burnham, como grandes exemplares do bom pensamento em prol do desenvolvimento prático da disciplina. É claro que, nem tudo sai como posto na teoria e, com esses projetos monumentais urbanísticos não seria diferente, as teorias, muitas das vezes, subverteram-se em questões que mereceriam uma atenção mais sensível aos fatores negativos ocasionados pela imposição de uma arquitetura ou urbanismo que tem como caráter ímpar a explosão das cidades, principalmente quando se trata das questões sociais e culturais inerentes a um povo, a um espaço urbano que apresenta uma poética de valor sensível ao seu reconhecimento e sentido de cidade.
Não indo tão longe, aproxima-nos, agora, dos exemplares postos aqui: lembremo-nos da modernidade do projeto de Lúcio Costa, o Plano Piloto de Brasília que veio carregado de novidades para a construção de uma nova tecni-cidade. Usamos, também, as referências do projeto urbanístico parisiense implantado como modelo de modernidade no espaço urbano, executado na cidade do São Salvador, essa que sim, me interessa os estudos, já que aqui estou como cidadã e futura profissional. A Avenida Sete de Setembro sofreu intervenções na gestão de J.J Seara, tornando esta avenida uma boulevard da cidade, levando em consideração as características higienistas, modernas e esteticamente agradáveis propostas por Hausmann na cidade de Paris e que foram implementadas aqui como um modelo de evolução urbana saibamos que, não deixou de ser, mas ainda essa ideia de reprodução de modelos externos as vivências de uma cidade plural desde os seus costumes até a não definição de seus espaços em maioria, poderá custar o preço de uma cidade explodida.

Demora a se dar conta que os rumos atuais das cidades são outros, a utopia parece tomar conta e, como guia de frente, rouba a cena acadêmica com o intuito de mostrar que os caminhos trilhados até hoje, e os passos ousados que virá, foram capazes de roubar toda emoção de uma cidade que é única e que deve ser respeita para ser sentida. Devemos pensar em novas formas de apropriar a disciplina urbanística e abrir um espaço fluído de discussões incluindo aqueles que não dominam as técnicas que visam a transformação da cidade sensível numa tecni-cidade, até porque a técnica inerente ao saber empírico é natural e faz sentido, diferente da técnica imposta que homogeneíza os espaços e, insensivelmente, os tornam um espaço limitador das possibilidades dos corpos intervenções nas suas cenas diárias. 
A arquitetura segue um tempo, a cultura de um povo, aliás, a arquitetura só surge por essas três questões: tempo, cultura e povo. Uma pequena diferença e contradição há nisso tudo. A arquitetura ela surge da cultura de um povo ou, aqui no Brasil, Salvador em especial, da mistura de povos, mas claro que, diante disso, valoriza-se com bastante clareza a produção branca e de todo povo que se encontra no topo dessa sociedade com estruturas hierarquizadas. Essas arquiteturas surgem das culturas, mas faz questão de se enrijecer, de jogar fora toda dinamicidade que vem junto quando se pensa ou vive uma cultura. A arquitetura se enrijece quando nega a produção de um povo, quando nega as informalidades das construções, quando afirma a boa arquitetura burguesa branca como única verdade, quando busca limpar, mesmo que inconscientemente, a história de uma arquitetura que surgiu bem antes do que consta nos livros de arquitetura. Bem antes do tripé arquitetônico proposto por Vitruvius (solidez, utilidade e estética). Uma arquitetura que surgiu, mas para muitos nunca surgirá, nunca será arquitetura, muito menos parte de uma história coletiva.  
Hoje, os tempos são outros, o povo se afirma como tal e a cultura continua nadando dentro de todo oscilar trazido pela sua dinamicidade, pela sua história. A cultura acompanha o tempo e com as arquiteturas não deveria ser diferente. Com, especialmente, o ensinar arquitetura não seria diferente. Os tempos são outros e as arquiteturas também. A realidade é outra. As relações entre arquitetura x pessoas x cidade demandam outros cuidados que vão além de causar surpresa pela monumentalidade das estruturas arquitetônicas, hoje arquitetura entra como, também, responsabilidade social, como meio de fazer sobreviver a cultura de um povo sempre oprimido. A arquitetura hoje vem nos mostrar da sua capacidade de mudança social e a sua monumentalidade não vem mais como estruturas concretadas e cheias de curvas ou linhas retas, práticas, modernas, mas sim do seu auto reconhecimento como atriz social que tem voz e peito para desmarcar os espaços urbanos repletos de segregações espaciais, que deixa escancarado a expulsão de atores sociais de seus lugares de direito, essa segregação dos espaços são causados, essencialmente, pela arrogância dos ‘profissionais da cidade’ que se embebedam das arquiteturas de outros povos, de outras culturas e outros tempos tão remotos e o difícil é se desprender, até porque criou-se um novo eu a partir de uma nova história, a realidade agora é europeizada. A mesma arquitetura que segrega é a arquitetura que tem em mãos o poder de fluidificar as edificações e suas ideologias e seu papel social que integre, não que negue. A negação, pela arquitetura, dos fatores sociais que preenchem uma cidade, chega a doer os olhos de quem vê e o coração de quem vive uma realidade que grita e ensurdece. Uma arquitetura impositiva é causa nobre da explosão das cidades. Muita cautela no traço e na técnica. A tecni-cidade é só uma parte do tanto que a cidade é, e que pode ser.
O ensino de arquitetura tem-se tornado demagogo, ditatorial. Somos obrigados a estudar uma arquitetura branca e burguesa em uma das cidades mais negras que já se ouviu falar. A história negra e indígena é jogada às margens mais uma vez. Só um povo vive. Só um povo produz. Só um povo tem voz. Essa arquitetura pertence aos poucos, foi a riqueza do modernismo que explodiu a segregação das cidades, foi no modernismo onde a sensibilidade da cidade se apagou, foi lá que a cidade se tornou uma técnica, não uma vida. Mas isso não é novidade, a educação aqui é aquela que nos tornam mudos, cegos e surdos. É isso que a academia quer. Colocam-nos revestidos numa burca e faz-nos esquecer da realidade que dói. Afasta a responsabilidade de retorno social dos futuros profissionais.

Como é que continuamos dando ênfase as arquiteturas produzidas e vividas em outros tempos tão distantes, vividas por cultural e povos tão diferentes da gente? Os intercâmbios de informações são essenciais, mas não negando a história que reina aqui, não negando o sangue que corre nas veias. O que é nosso, mais uma vez se apaga, para dar espaço livre ao do outro, a história daquele que sempre oprimiu, daquele que sempre teve voz. E a nossa voz se cala, agora entoa um grito dentro, um grito que rasga por ver o trilhar da arquitetura, ela vai sempre pelos caminhos de ouro, e faz questão de viver sua utopia fugindo da realidade que está escancarada como paisagem urbana e como conflitos de povos. Está tudo posto, mas a escolha é se ausentar das responsabilidades sociais que, se percebidas e pensadas poderia mudar o quadro urbano e de ensino nas escolas de arquitetura.